quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Deixe aqui o seu problema

Textinho antigo pra começar, mas eu gosto dele... não revisei antes de postar, então talvez minhas opiniões difiram do citado. Ainda assim, lá vai!


Hoje, enquanto estava no caminho de volta pra casa, inevitavelmente passei pela frente de uma daquelas igrejas universais do reino de Deus. Estava tendo devaneios a respeito da vida, pensando nas coisas que tinham acontecido no trabalho, no ônibus lotado e na população porca da cidade de São Paulo (temas a serem abordados em próximos artigos), quando repentinamente, e não mais que repentinamente, uma senhora se lançou à minha frente sacando de debaixo de seu braço um jornalzinho típico dessas igrejas sensacionalistas que vendem Deus.

         “Aceita um jornalzinho, Jovem?” – disse a senhora.

         “Não. Obrigado.” – e continuei andando.

“Aceita, tem um papel pra você deixar o seu problema aqui pra gente orar por você. Deus resolve!” – replicou a senhora, mesmo eu já estando longe dela o suficiente pra quase não ouvir sua voz.

         Continuei andando ainda com raiva da primeira parte da conversa, a parte que a senhora me chamou de jovem. Não que eu seja velho, ou algo do tipo, é apenas que é um jargão que os crentes (sejam evangélicos, católicos ou de quaisquer movimento “carismático” cristão) usam para distinguir a “mocidade ativa” (e muitas vezes inconseqüente) dos “dinossauros da fé” (aqueles que são tidos como sábios, anciões, pessoas de respeito – essas utilizam-se de seus cargos para ensinar aos outros freqüentadores da igreja seu meio de vida ultrapassado).

         Segui andando até que a raiva passou pelo processo de reflexão e como todo (ou quase todo) ser racional me pus a pensar na segunda frase que ela disse: “deixe aqui o seu problema que a gente vai orar por você e Deus resolve!”, foi tão forte que eu até continuo ouvindo a empolgação com que a senhora me disse aquelas palavras, e eu ainda não consigo entender como alguém pode falar isso sem ao menos saber o que está dizendo, ou entender todo o seu contexto.

         Nos meus devaneios durante os próximos três quarteirões não consegui parar de pensar nisso e descobri uma das fórmulas mágicas das igrejas que vendem Deus: elas atacam direto no problema das pessoas, e pedem que essas pessoas transfiram seus problemas para Deus, pois já que ele é um Ser Superior, ele há de resolver todos os seus problemas, e os meus, e os do vizinho, não importa se seja arranjar dinheiro para pagar o IPVA ou arranjar um emprego. E olha só, você nem precisa fazer sua parte, tudo que o suposto Deus vendido lhe pede em troca é: ore, leia a bíblia e veja que você deve dizimar. Assim a igreja lucra e o povo de forma geral acredita e esquece do problema. É o “pão e circo” do século XXI. Sim, pão e circo: pão porque mata a fome que as pessoas têm (de cultura, de comida e de tantas outras coisas), assim como a vontade de caminhar e seguir seus sonhos, tudo é reduzido a um simples ato que você pode fazer até quando tem um monte de gente ao seu redor: orar; e circo, porque as freqüentes “Sessões do Descarrego” já viraram motivos de piada entre os não-seguidores de nenhuma religião (ou alguém aqui desconhece o vídeo da menina pastora no Youtube? – recomendo a versão remix).

         Então eu paro e penso: “eu acredito em Deus”, mas muitos crentes me acham menos “crente” (aqui no sentido de acreditar em Deus) porque eu não entrego todos os meus problemas pra Deus resolver. É claro que não! Deus nunca trabalhou pra mim, me pagou sorvetes ou Big Mac’s, Deus não compra minhas roupas, e nem vai comprar! Deus nos deu a vida, a saúde, o livre arbítrio e nos disse: “façam o que quiser, tratem de ser feliz porque eu vos criei inteligentes o suficiente pra desenvolver coisas e dominar o mundo” e desde então alguns homens construíram impérios, barcos, desenvolveram a ciência, a internet, e mais uma porrada de coisas bacanas e divertidas (vide iPod, Laptop, Celulares, Palmtops e outros tantos acessórios tecnológicos da nossa época) enquanto outros simplesmente rezam e agradecem todo dia à Deus por ter lhes dado o Dom de fazer o que quiserem, embora nunca usem este Dom pra nada.

         Quando eu era mais novo, vi em um desses Animes hi-techs (dos quais eu gosto muito) uma frase muito interessante, mas que na época acreditei ser especificamente ateísta, ela dizia: “Estando Deus em seu céu, tudo na Terra correrá bem”. Hoje percebo que sua filosofia não só tem um fundo de verdade, como mais de um tipo de interpretação. Eu não espero que Deus vá fazer compras no supermercado pra mim, ou que Ele me empreste uma grana pra eu pagar o cartão de crédito, eu faço do meu próprio esforço minha sobrevivência e minha vida. Se precisarei prestar contas no fim da minha vida, não tenho medo. Minha consciência me diz que tenho sido uma boa pessoa trabalhando duro pra dar um futuro bom principalmente pra mim, e em segundo plano às pessoas que amo, sem precisar roubar, machucar outras pessoas ou tirar outras vidas. Sem precisar passar por cima de ninguém. E Deus está lá no seu céu, vendo tudo isso e me dando o maior apoio, dando um tapinha nas costas quando eu mereço e me fazendo aprender outras lições que eu ainda não aprendi, mas mesmo assim ele não desceu de lá pra me falar o que é certo e o que é errado. Deus confia no meu julgamento, por isso me deu o livre arbítrio!

         Eu digo que, seja qual for sua crença, e sem entrar em nenhum mérito específico de cada religião, aqui fica meu conselho (que se fosse bom, eu poderia vender até em igrejas!): “Não importa o que Deus pode fazer por você, faça você mesmo! Ele até gostará bem mais se for assim, e vai te dar uma mãozinha! Você vai ver!”. Alcance sua independência de Deus, e verá que ele ainda assim continuará na sua vida, sem você precisar explora-lo e pedir que ele faça sua vida funcionar pra você. De quebra você ainda vai ganhar bastante auto-confiança e experiência de vida. Pra mim parece um bom negócio, mas cabe a cada um ver o que é melhor pra si mesmo. Vou seguir os conselhos de Deus: expressar minha opinião e deixar que cada um decida por si mesmo. Viu como não é difícil?


12.03.2007